Tags

, , , , , ,

Audax 300 km, só para quem é Bruto.

Participar de uma etapa do Audax era um sonho antigo que no ano passado tornou-se realidade ao conseguir participar e completar a etapa de Santa Maria da Vitória, lá no além São Francisco, perto de Bom Jesus da Lapa. Cumpri a etapa dentro do prazo limite de 13 horas – cheguei antes disto. Mas a participação naquela etapa me motivou a outra coisa e o vírus do ciclismo de longa distância já tinha me contagiado.

Este ano tinha estabelecido como meta participar do Audax 200 e também do Audax 300, tudo isto visando o índice para tentar o Audax 400. Mas afinal de contas, o que é este tal de Audax? São desafios de longas distâncias no ciclismo e que tem por objetivo cumprir as metas dentro do prazo pré estabelecido. Assim, para os 200 km temos o limite de 13:30 horas; para os 300 km o limite de 20 horas; para os 400 km o limite de 27 horas. Ainda restam os 600 km e os 1200 km da clássica Paris – Brest – Paris que é realizada a cada quatro anos e só quem alcança o índice neste período está habilitado a disputar a PBP como é carinhosamente chamada. A próxima edição será em 2019.

Em fevereiro eu participei e cumpri a etapa do Audax 200 km no trecho Itabuna – Rio do Meio – Itabuna. Fiz em 12:30 hs e cheguei bem, o que me animou a participar do desafio seguinte. Mas pedalar 300 km não resume-se apenas a acrescentar 6,5 horas e 100 km a mais no percurso. O físico tem que estar bem bem, o psicológico idem e o planejamento do equipamento deve estar impecável, pois teremos de enfrentar um longo trecho à noite e imprevistos sempre acontecem quando a noite chega.

Pois bem, estava fisicamente preparado – afinal de contas a minha viagem para Aracaju serviu com treino – estava psicologicamente preparado e em paz, a bike (minha querida Frida) tinha sido levada para a Pró Bike e ficou perfeita (Ailton fez um serviço de mestre ao lubrificar cada peça).

A largada foi no sábado às 05:00hs, ainda estava escuro quando partimos. De Ilhéus estavam presentes eu, Ley e Júlio Gomes e o dia prometia. Ainda tive como companheiro de pedal o amigo Elson, ciclista da cidade do Prado que conheci na etapa anterior do Audax aqui em Itabuna. Passamos no PC 03 com tempo de sobra (Posto Marisol perto de Santa Cruz da Vitória, no km 81) e seguimos em direção ao PC 04, em Itapetinga no km 157, com todo gás. Aí as surpresas começaram. Encontramos três ciclistas tentando reparar a corrente da bike que tinha quebrado. Paramos para ajudar pois os mesmos estavam com dificuldade; assim que fizemos o reparo furei o pneu pela primeira vez. Perdemos tempo e muitos ciclistas passaram por nós. Seguimos em frente e ainda tínhamos a meta de chegarmos em Itapetinga antes das 13:00hs, o que daria uma boa média de pedal.

A cerca de 5 km de Itapetinga aconteceu o segundo furo, mas eu estava com uma câmara reserva e daria para trocar numa boa. Aí aconteceu a grande surpresa: a câmara de ar era com válvula grossa e o aro era para válvula fina. Tava posto em xeque a minha continuação no desafio. Elson sacou da sua bolsa de “Esquálidus” (quem lembra do personagem alienígena amigo do Mickey Mouse?) um alicate a ali, na beira do asfalto quente consegui “usinar” a abertura para que a câmara de ar fosse utilizada. Conseguimos fazer o reparo, mas perdemos tempo e isto foi fundamental depois. Chegamos em Itapetinga duas horas depois do previsto, comemos alguma coisa, nos reidratamos e voltamos para a estrada.

A tarde seguia e a noite veio, implacável. Liguei o meu farol e ele deu “xabu”, passei a pedalar no facho luminoso de Elson (mas eu havia testado o farol antes da prova e ele funcionou perfeitamente). Seguimos em direção ao Posto Mirasol, agora no quilômetro 233 (PC-05) e Elson comentou o seguinte comigo: “Elvis, vamos pedalar pela rodovia e não no acostamento, assim você não corre o risco de furar o pneu novamente”; ao que respondi: “só não pode furar o pneu dianteiro, pois, câmara para o traseiro eu tenho”. Parecia que tinha “cantado a bola”. Na entrada do PC-05, pedalando cautelosamente sobre os paralelepípedos, senti a roda de Frida bater com força contra uma pedra. Ali acabava a minha aventura no Audax 300. Já cheguei falando para o pessoal do PC “estou fora, pneu furou e não tenho mais câmara de ar”. A esta altura pedalava com uma lanterna emprestada que ficava falhando. O planejamento da máquina falhou. Frustração, para não dizer outra coisa, pois tinha bastante gás e estava psicologicamente pronto para enfrentar os 67 km finais, ainda mais que ao chegarmos no posto, vimos o pessoal saindo, ou seja, dava tempo de alcançar o grupo. Elson abandonou um pouco mais à frente, quando o farol dele apagou de vez.

Aprendi a lição: planejamento é tudo e não podemos falhar. O que me deixou mais frustrado é que tenho em casa outra bike pronta para enfrentar uma situação limite como esta – Martina – mas preferi usar um equipamento mais leve, por isto a opção de Frida. Agora é me recuperar fisicamente e procurar outra etapa do Audax 300 km em outro estado. Sei de uma coisa, vou completar a etapa ainda este ano.

No mais, parabéns aos bravos guerreiros que concluíram o Audax 300 km, em especial os meus amigos Ley e Júlio Gomes.

Audax 300 km é para os fortes e somente os guerreiros que não desistem chegam ao final. Eu não desisti, fui forçado a abandonar por questões técnicas. Esta é a minha meta e vou cumprir. Deixo aqui os meus agradecimentos à todos que acreditaram e me apoiaram nesta aventura. O segundo semestre vem aí e outras etapas serão cumpridas.

Martina sem o farol e sem os bagageiros. Esta deveria ter sido a minha opção.

Martina sem o farol e sem os bagageiros. Esta deveria ter sido a minha opção.

Frida, usada na prova do Audax 300.

Frida, usada na prova do Audax 300.

Aro traseiro de Frida, "usinado" à força para usar a câmara de ar com válvula grossa.

Aro traseiro de Frida, “usinado” à força para usar a câmara de ar com válvula grossa.

Aro dianteiro de Frida, ainda original e onde só é possível usar câmara de ar com válvula fina.

Aro dianteiro de Frida, ainda original e onde só é possível usar câmara de ar com válvula fina.

Eu, Júlio gomes e Zeca Pellegrini na chegada do Audax 300 em Itabuna.

Eu, Júlio Gomes e Zeca Pellegrini na chegada do Audax 300 em Itabuna.

Percurso do Audax 300. Itabuna - Itapetinga - Itabuna.

Percurso do Audax 300. Itabuna – Itapetinga – Itabuna.

Anúncios